Ao saudoso Professor Carlos Nelson Coutinho (ESS/UFRJ)
Por Pedro Cláudio Cunca Bocayuva, NEPP-DH/UFRJ
O Professor historiador Pedro Marinho do Museu de Astronomia (MAST) fez uma bela mensagem de homenagem ao aniversário (28 de junho) do saudoso Professor Carlos Nelson Coutinho (ESS/UFRJ), um intelectual destacado no plano nacional e no internacional.Reproduzimos com autorização do autor a sua mensagem que sintetiza a contribuição de Carlos Nelson Coutinho como interprete, tradutor e pensador que desdobrou e aplicou as categorias de Antônio Gramsci para os desafios da segunda metade do século XX, que recolocou os desafios para enfrentarmos os desafios da relação entre democracia e socialismo no início do século XXI diante do refluxo e reciclagem da passagem da revolução passiva para a contrarrevolução aberta desde a chave da violência neoliberal.
Hoje Carlos Nelson Coutinho faria 83 anos, e é uma coincidência boa que ele tenha vindo ao mundo um dia antes de mim, ele no 28, eu no 29. Foi por causa dessa proximidade de datas, aliás, que num café durante o Seminário Internacional dos 120 anos de Gramsci, que organizamos na UNIRIO em agosto de 2011, no Auditório Paulo Freire, ele me veio com aquela ironia mansa de sempre, dizendo que a idade lhe havia dado ao menos um privilégio, o de não precisar mais chegar cedo a lugar nenhum. Acordava depois das onze, e todo mundo já sabia que não se chamava Carlos Nelson para mesa de manhã. Senti ali uma cumplicidade boa, um privilégio que eu também sempre almejei. Pouco mais de um ano depois ele se foi, em setembro de 2012, e meses antes a UFRJ lhe havia conferido o título de professor emérito da Escola de Serviço Social, cerimônia em que estive, como estaria depois, infelizmente, em seu velório na mesma Universidade.
Mas para além dos eventos acadêmicos e do PCB, houve um momento em que o nosso vínculo se firmou, e foi quando ele me recebeu, ainda jovem aluno de graduação em história, dividido sobre qual mestrado seguir, cheio das dúvidas que só os vinte anos sabem ter. Recebeu-me diversas vezes como quem tinha todo o tempo do mundo, no seu apartamento na Gávea, sentado numa rede como um bom baiano, o gatinho por perto, o pôster do Partido Comunista Italiano na parede atrás, muitos livros e sempre cheio de gentilezas.
Carlos Nelson foi quem abriu Gramsci para nós. Traduziu mais de setenta livros ao longo da vida, ofício que para ele nunca foi mero ganha-pão, e sim parte da própria reflexão. Já nos anos 1960, ainda muito jovem, ao lado de Leandro Konder, seu grande amigo, participou da primeira tradução brasileira dos Cadernos, baseada na edição temática italiana, publicada na velha Civilização Brasileira de Ênio Silveira. Veio o exílio em Bolonha e em Paris nos anos 1970, onde respirou de perto o comunismo italiano de Berlinguer e Ingrao, que marcaria para sempre o seu pensamento e renderia, na volta, o ensaio que mais agitou a esquerda brasileira, "A democracia como valor universal". E décadas depois voltaria aos escritos de Gramsci em outro patamar, coordenando, com Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, a nova edição dos Cadernos do Cárcere, seis volumes pela mesma casa, organizados em torno dos cadernos especiais, aqueles em que Gramsci reelaborava e adensava o que antes anotara de passagem. Foi um trabalho de fôlego que se tornou, com méritos e com as polêmicas de critério que toda grande edição carrega, a base de quase tudo o que se leu de gramsciano em português.
E não parou no ofício do tradutor, fez de Gramsci uma ferramenta para pensar o Brasil. Pegou os conceitos do sardo, a hegemonia, a sociedade civil, o Estado ampliado, a revolução passiva, e as obrigou a responder pela nossa história, feita de modernizações conduzidas pelo alto, de reformas concedidas sem o povo, de um Estado que se transformava à medida que a sociedade se complexificava. E muito longe de uma aplicação mecânica, sua leitura foi criadora, posto que devolvia o Brasil a si mesmo iluminado por dentro.
Por isso quem hoje trabalha com essas categorias entre nós, na história, no serviço social, na ciência política, pisa num terreno que ele desbravou. E não foi só aqui, ele foi vice-presidente da International Gramsci Society, era reconhecido na Itália e no mundo como um dos grandes intérpretes do pensador sardo, o que não é pouco para um marxista do Sul.
Me considero gramsciano, e me considero em boa medida pela leitura dele. Hoje, dia 28, ergo a lembrança de Carlos Nelson, e amanhã, no 29, ao soprar a minha vela, sopro também por ele.
Carlito, onde quer que esteja, um brinde de um bom vinho a você.
Obrigado por tudo, meu mestre, camarada e amigo. Descanse em paz...